sexta-feira, 31 de outubro de 2014




A diferença entre amor, carinho e amizade:

"São 7h30 da manhã. Escuto meu pai acordando. Vou até o quarto para dar um beijo. Isso é amor. Ele não consegue se levantar. Então eu o abraço e carrego até a cadeira de rodas. Isso é amizade. Ele não consegue tomar banho. Visto a minha bermuda e dou banho nele. Coloco muito sabão até ele virar um urso polar. Isso é bagunça. Ele gosta de tomar banho escutando Roberto Carlos. Coloco a música. Isso é amizade. Aprendo a cantar Roberto Carlos. Isso é amor. São 9 horas da manhã. Ele não consegue comer a torrada inteira. Corto em pedaços pequenos. Isso é carinho. Ele não consegue fazer a barba. Então faço a barba pra ele. E deixo metade do bigode. Isso é bagunça. São 10 horas da manhã. Desço com ele para tomar sol. Isso é amizade. Ele sempre gostou de voar. Paro a cadeira de rodas na entrada do prédio e falo: “Bom dia! Aqui é o comandante Carvalho direto da cabine de comando. Céu azul. Temperatura de 28 graus. Tempo estimado da viagem 30 segundos. Obrigado e tenham um excelente voo”. Puxo a cadeira pra trás. (por favor, mãe, não leia isso), e começo a empurrar em alta velocidade pelo pátio do prédio. Ele começa a sorrir. Isso é aventura. São 12h30, hora do almoço. Almoço com ele. Isso é amizade. Ele não consegue comer sozinho. Coloco um pouco na colher e falo: “Tripulação, preparar para a decolagem” E a comida vai voando para a sua boca. Isso é carinho. Ele sempre gostou de beterraba. Eu nunca gostei. Hoje nós dois comemos. Ficamos com a boca roxa rindo um para o outro. Isso é amizade. São 13h30, hora da soneca. Coloco meu pai na cama. Dou um beijo e falo: “Dorme bem.” Isso é carinho. Saio para trabalhar. São 20 horas, volto pra casa. Quando abro a porta, todos os dias meu pai está na sala me esperando. Fecho a porta, ele abre um sorriso. Isso é amor. Ele não consegue ir ao banheiro. Dou um abraço, levanto da cadeira e coloco na privada. Isso é amizade. Ele não consegue se limpar. Visto a minha bermuda. E dou banho nele. Isso é carinho. Coloco o chuveiro quente para tudo ficar embaçado. Começo a desenhar no Box. E narrar uma história. Ele fica sorrindo. Isso é sonhar. São 21 horas, hora de dormir. Antes de colocar na cama. Pego a fralda. E uma caneta esferográfica. Desenho o símbolo do super-homem na fralda. Ele começa a rir. Isso é amizade. Coloco ele na cama. Sento ao lado. E começo a contar o resto do meu dia. Isso é carinho. Ele não consegue mais falar. Então, responde com os olhos e um sorriso. Isso é amor. São 23horas, ele dorme. Levanto, dou um beijo e falo no ouvido dele: “Eu te amo. Até amanhã” Isso é esperança. Vou para o meu quarto. Meu pai sempre disse que as estrelas são anjos. Então, todos os dias antes de dormir, vou até a janela. Começo a olhar para as estrelas. Respiro fundo e falo: “Onde você está agora, meu anjo? Eu sei que você pode me escutar. Por alguma razão, eu e meu pai nos encontramos aqui na Terra. E descobrimos o que é o amor. Queria que tivéssemos mais tempo juntos. Porque agora estamos aprendendo o que significa ser humano. Então meu anjo, por favor, seja paciente. Não leve meu pai hoje, o.k?”.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

"Não nasci para ser adequada, coerente, adorável. Nasci para ser gente. Para sentir de verdade. Tenho vocação para transparências e não preciso ser interessante o tempo todo. Por isso, não espere que eu supere as suas expectativas: às vezes, nem eu supero as minhas."
"Nem tão longe que eu não possa ver
Nem tão perto que eu possa tocar."
"Só as crianças sabem o que procuram."
"Expresse seu amor sem medo e isso não será ridículo. Será lindo. Eterno. Corajoso e generoso. Será importante. Grande. O maior dos gestos."
"Quem és tu que me lês? És o meu segredo ou sou eu o teu? "

"Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, eles estão errados… Elas têm que esperar um pouco para o homem certo chegar, aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore."

"Ela é “estranha”. Tem vergonha até pelo bate-papo, tem ciúmes de foto. Chora ouvindo sua música preferida e grita quando se assusta. É escandalosa, porém tímida, isso depende se está ou não perto dos seus amigos. Aliás, quando ela está com os amigos, perde a vergonha na cara e só faz “merda”. Sim, ela é “estranha”, mas pelo menos procura ser feliz. Ela tem uma risada alta e ao mesmo tempo uma voz suave. Faz careta do nada. Come pipoca, brigadeiro e sorvete sem culpa. Conversa sozinha, canta errado, dança como uma louca em casa, dá risada dos tombos, faz palhaçadas, conta piada velha e acha maior graça, conversa com os animais, pede desculpas aos objetos quando esbarra neles. Sim, ela é louquinha, mas quem não é? E sabe uma coisa? Dane-se. Pessoas “perfeitas” são um saco."

Adaptado




"O maior elogio que eu poderia fazer a uma pessoa era dizer assim: gosto de você além da minha imaginação, não porque aprendi a gostar, mas porque por mais que eu sonhe, você é ainda melhor que o sonho. Você é além da minha capacidade em te imaginar. E eu jamais te diria isso. Não posso te fazer esse elogio."

sábado, 4 de outubro de 2014

Tá frio na rua. Marcamos um cinema, antes pousamos num café de título francês e acabamos ficando por lá tempo demais. Você pediu um capuccino sem chantilly, mas veio com chantilly. Sempre vem com chantilly, você diz. Não é garota de chantilly. Eu peço um expresso duplo. E depois outro. Aí mais um. Você mexe a colher na taça lentamente, falando sobre uma tartaruguinha de estimação que supostamente fugiu. A gente ri. Seu nariz tá vermelho. Eu tô nervoso. Mais um expresso, moça, por favor. Obrigado. Me chama de cavalheiro. Tomo como elogio, meio sem saber se é bom. Penso que é. Penso. Você olha muito pros lados e isso me deixa um pouco inseguro. A janela, o caixa, os doces na vitrine. E diz que meu olhar é penetrante, dá um pouco de vergonha. Que nada, é o frio. Você diz que gosta de sair comigo, dar voltas na cidade, sei lá. Eu sei escutar, não sou como aqueles caras. Não sei que caras são esses, mas concordo. Estou calado justamente por estar nervoso. Aqueles caras ficam nervosos? Eu fico. Você sorri pra mim e desvia o olhar antes que eu tenha um AVC bem na sua frente. Aí gosto mais de você porque acaba de salvar minha vida. Um silêncio constrangedor paira entre aquele “eu sei que você sabe que estou a fim de você tanto quanto sei que você sabe que está a fim de mim”. Permanecemos quietos, fingindo que ninguém anda louco pra ficar bem agarradinho de outrem. Mas até o padeiro na cozinha sabe Aí lembro daquela do Los Hermanos. Canto ela um pouco, baixinho, fitando nada. Você grita que adora essa. Eu me assusto. Não por gostar dessa, mas pelo grito. Eu já sabia. Agora vai lembrar de mim sempre que escutar. Ou seja, quase sempre. Aí eu canto como quem não quer nada, querendo tudo “…até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei…”. Você finge não entender. Não temos grana nem intenção de ir a lugar algum. É noite, tá frio. Saímos pela calçada com a música na cabeça. Com a voz catarrenta você segura o poste que indica a rua José do Patrocínio e grita alto “…e ir onde o vento for que pra nós dois sair de casa já é se aventurar!” Uma senhorinha olha e te acha doida. Você rodopia no poste. Linda e abobada. Eu esqueço um pouco que caminho nervoso pela noitinha. Você também tá nervosa, mas disfarça com esses berros. Ou talvez seja apenas eu. Vou levando você pra casa, sem intenção de subir escadas, além das suas. Eu apoio as costas na parede fria, com as mãos no bolso, me achando eloquente. Você rodopia agora o chaveiro. Você gosta de rodopiar coisas, constato. Resiste em penetrar a fechadura. Espera que eu entenda esses signos femininos, mas eu tô nervoso demais pra captar o óbvio. Um sentimento estranho de que aquilo acabe logo. É uma tortura. Não como aquelas torturas com arame temperado a fogo, mas ainda assim. Ok, então tá, eu digo. Então tá então, você diz. Você se despede beijando meu rosto. Ninguém nunca beijou um rosto por tanto tempo. É meio que um recorde. Fico pensando asneiras quando assustado. Aí você fica na ponta dos pés e me enfia a língua, como se isso fosse coisa de menina desde, sei lá, o tempo dos hominídeos. Você enfia agora as mãozinhas nos bolsos da jaqueta que me deixa parecido com o Richard Ashcroft (ao menos eu acho). Percebo também que gosta de enfiar coisas em lugares. Diz querer continuar quentinha. Não fica bem eu subir, sei disso. Ficamos ali passando um pouco de frio e perigo. Não é confortável ali. Isso me deixa triste, você precisa logo entrar. Foi divertido. Você sorri gostoso. E pergunta se também senti borboletas no estômago. Claro que sim. Eu comeria até baratas por você, exagero. Mas é sério mesmo. Você diz “ui, que nojo” rindo. E diz que gosta de mim, faço você rir. Merda. O relógio é tipo um assassino do amor. Você me diz pra não falar palavrões. É feio e minha boca é tão bonita. Entendo que minha roupa é tão bonita (essa jaqueta realmente me deixa foda). Não, não. Boca. Lábios. Eu beijo mais uma vez, aquecendo suas orelhinhas. Você diz que queria ficar mais tempo. Eu digo que vou ligar. Você diz que tudo bem, não precisa. Mas eu quero. Eu nunca sei o que fazer numa situação dessas. Quanto tempo espero antes de ligar? Vou embora alegre, pensando em você e bolando um jeito de não mais falar palavrões. Porque nunca mais quero ter de lavar a boca.

 GABITO NUNES.